sábado, 31 de agosto de 2013

Textos 2- Práticas pedagógicas IV

As tecnologias invadem nosso cotidiano

Vani Kenski1
As nossas atividades cotidianas mais comuns - como dormir, comer, trabalhar, nos deslocarmos para diferentes lugares, ler, conversar e se divertir - são possíveis, graças às tecnologias a que temos acesso. Elas estão tão presentes em nossas vidas que já nos acostumamos e nem percebemos que não são coisas naturais. Tecnologias que resultaram, por exemplo, em talheres, pratos, panelas, fogões, fornos, geladeiras.... alimentos industrializados... e muitos outros produtos, equipamentos e processos que foram planejados e construídos para podermos realizar a simples e fundamental tarefa que garante a nossa sobrevivência: a alimentação.
Da mesma forma, para todas as demais atividades que realizamos em nossas vidas, precisamos de produtos e equipamentos resultantes de estudos, planejamentos e construções específicas para serem utilizados, na busca de melhores formas de viver. Ao conjunto de conhecimentos e princípios científicos, que se aplicam ao planejamento, à construção e à utilização de um equipamento em um determinado tipo de atividade nós chamamos de "tecnologia". Para construir qualquer equipamento - seja uma caneta esferográfica ou um computador - os homens precisam pesquisar, planejar e criar tecnologias.
Nas atividades cotidianas lidamos com vários tipos de tecnologias. As maneiras, jeitos ou habilidades especiais de lidar com cada tipo de tecnologia, para executar ou fazer algo, nós chamamos de técnicas. Algumas dessas técnicas são muito simples e de fácil aprendizado. São transmitidas de geração em geração e integram os costumes e hábitos sociais de um determinado grupo de pessoas. Outras tecnologias exigem técnicas mais elaboradas, habilidades e conhecimentos específicos e complexos.
Existem muitos outros equipamentos e produtos que utilizamos em nosso cotidiano e que não os notamos como tecnologias. Alguns invadem o nosso corpo, como próteses, alimentos e medicamentos. Óculos, dentaduras, comidas e bebidas industrializadas, vitaminas e outros tipos de remédios são produtos resultantes de tecnologias sofisticadas.
Como podemos deduzir, dificilmente a nossa vida cotidiana seria possível, neste estágio de civilização, sem as tecnologias. Elas invadiram definitivamente o nosso cotidiano e já não sabemos viver sem fazer uso delas. Por outro lado, nos acostumamos tanto com os produtos e equipamentos tecnológicos que os achamos quase naturais. Nem pensamos o quanto foi preciso de estudo, criação e construção para que estas tecnologias chegassem em nossas mãos.
As tecnologias não são apenas feitas de produtos e equipamentos.
Existem outros tipos de tecnologias que vão além dos equipamentos. Em muitos casos, alguns espaços ou produtos são utilizados como suportes, para que as ações ocorram. Um exemplo: as chamadas "tecnologias da inteligência" (Lévy, 1993), construções internalizadas nos espaços da memória das pessoas e que foram criadas pelos homens para avançar no conhecimento e aprender mais. A linguagem oral, a escrita e a linguagem digital (dos computadores) são exemplos paradigmáticos desse tipo de tecnologia.
Articuladas às tecnologias da inteligência nós temos as "tecnologias de comunicação e informação" que, através de seus suportes (mídias ou meios de comunicação, como o jornal, o rádio, a televisão) realizam o acesso, a veiculação das informações e todas as demais formas de articulação comunicativa, em todo o mundo.
As tecnologias de comunicação e informação invadem o nosso cotidiano
Estamos vivendo um novo momento tecnológico. A ampliação das possibilidades de comunicação e de informação, por meio de equipamentos como o telefone, a televisão e o computador, altera a nossa forma de viver e de aprender na atualidade.
Antigamente as pessoas saíam às ruas ou ficavam nas janelas de suas casas para se informarem sobre o que estava acontecendo nas proximidades, na região e no mundo. A conversa com os vizinhos e os viajantes garantia a troca e a renovação das informações. Na atualidade, a "janela é a tela" diz Virilio. Através da tela da televisão, é possível saber de tudo o que está acontecendo em todos os cantos - desde as mais longínquas partes do mundo até as nossas redondezas. Da nossa sala, através da televisão, podemos saber a previsão do tempo e o movimento do trânsito, nos informarmos sobre as últimas notícias, músicas, filmes e livros que fazem sucesso e muito mais.
O conteúdo oferecido pelos programas televisivos passou a orientar as nossas vidas. Pessoas de todas as idades, condições econômicas e níveis intelectuais começaram a viver "ligados na televisão". Algumas pessoas chegaram "no limite": trocaram de lado. Assumiram em suas vidas valores, hábitos e comportamentos copiados dos personagens da televisão. Viraram também "personagens". Não conseguem mais viver distantes da televisão e assimilam acriticamente tudo o que é ali veiculado.
A televisão, por sua vez, aproxima-se cada vez mais da realidade cotidiana. O sucesso dos novos programas ("reality shows") como "Casa dos Artistas" e "Big Brother Brasil" mostra o quanto a vivência cotidiana das pessoas alimenta o "show" oferecido pela mídia. A ficção confunde-se com a realidade produzida no espaço artificial dos cenários televisivos. Artistas e pessoas comuns vivem um cotidiano totalmente documentado e exibido e que desperta a curiosidade geral do grande público. A exibição da "performance" das pessoas em cenas de intimidade cotidiana explícita (dormir, comer, tomar banho, namorar) diante da tela confunde os pensamentos, sentimentos, julgamentos e ações dos telespectadores.
A mídia televisiva como tecnologia de comunicação e informação invade o cotidiano e passa a fazer parte dele. Não é mais vista como tecnologia, mas como complemento, como companhia, como continuação do espaço de vida das pessoas. Por meio do que é transmitido pela televisão, as pessoas adquirem informações e transformam seus comportamentos. Tornam-se "teledependentes", consumidores ativos, permanentes e acríticos de tudo o que é oferecido pelo universo televisivo.
Este é um dos maiores desafios para a ação da escola diante do que é veiculado pela televisão na atualidade. Viabilizar-se como espaço crítico em relação às informações e manifestações veiculadas pela TV. Aos professores é designada a importante tarefa de refletir com os seus alunos sobre o que é apresentado pela televisão, suas posições e problemas. Reconhecer a sua interferência no modo de ser e de agir das pessoas e na própria maneira de se comportar diante do seu grupo social, como cidadãos.
Apropriando-se das palavras de Umberto Eco (1997), "nós precisamos de uma forma nova de competência crítica, uma arte ainda desconhecida de seleção e decodificação da informação, em resumo uma sabedoria nova" É preciso saber aproveitar a liberdade e a criatividade do espaço televisivo mas, ao mesmo tempo, aprender a definir os limites, a consciência crítica, reabilitar os valores e fortalecer a identidade das pessoas e dos grupos. Desafios de hoje a serem enfrentados por todos nós, professores.


Referências bibliográficas:
ECO, Umberto. From Internet to Gutenberg. 1997. (documento eletrônico: <http://www.italynet.com/columbia/internet.htm>)
LÈVY, Pierre. Cibercultura. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1999.
VIRILIO, Paul. O espaço crítico. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.
NOTAS:

1 Professora, com mestrado (UnB) e doutorado em Educação (UNICAMP). Representante do Grupo de Trabalho Educação e Comunicação no Comitê Científico da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduaçãao em Educação-ANPED. Pesquisadora do CNPq. Atualmente é pesquisadora-docente da USP e da UMESP. Coordenadora do grupo de estudos e pesquisas Memória, Ensino e Novas Tecnologias-Ment. Orienta pesquisas de mestrado e doutorado e é autora de artigos e livros sobre esses temas.

Texto 1- Práticas Pedagógicas IV-



Técnica, Tecnologia e Ciência (I)
(*) Milton Vargas
A Tecnologia chegou, em nossos tempos, especialmente depois da globalização, a adquirir enorme importância - não só para os indivíduos mas, também, para a nações e para a sociedade em geral - levantando problemas econômicos, políticos, sociais e mesmo culturais. Torna-se, portanto, necessário indagar sobre a própria essência do que é Tecnologia. Isto é, urge meditar filosoficamente sobre o significado e o sentido do que se chama Tecnologia.
Grandes filósofos já vinham, desde o início do século, preocupando-se com a Técnica. Oswald Spengler, o festejado autor do best-seller filosófico dos anos trinta, "A Decadência do Ocidente", tratou do assunto no seu "O Homem e a Técnica". Nesse ensaio o homem é visto como animal de rapina, usando a Técnica como sua arma. Depois disso, Ortega y Gasset publicou, em jornal argentino - se não me engano, "La Nacion" - uma série de artigos que vieram a anfeixar o volume "Meditacion de la Técnica", editado pela Revista do Ocidente, em 1939. Esse interesse filosófico chegou a motivar as meditações de um dos maiores filósofos deste século, Martin Heidegger, em seu ensaio, "A Questão da Técnica", cujo original alemão apareceu em 1953. Contudo, talvez com exceção desse último, não creio que eles estivessem conscientes que o interesse maior não mais estava no estudo da Técnica, mas, sim, no da Tecnologia. Isto é, de que as atividades técnicas não eram mais resumíveis ao trabalho manual ou mecânico sobre materiais ou construção de obras. De que, entre os técnicos dos nossos tempos, haviam os tecnologistas, formados em escolas superiores, que aplicavam teorias, métodos e processos científicos para a solução de problemas técnicos. Isso veio trazer uma simbiose entre Técnica e Ciência cujos efeitos estavam longe de ser previstos, como determinantes dos destinos da humanidade.
A Técnica é tão antiga quanto a humanidade. Há mesmo a idéia, entre antropólogos, de que o que distinguiria os restos fossilizados de um homem dos de um hominídeo seria a presença, junto ao primeiro, de instrumentos por ele fabricados. Contudo, há a opinião de Levi-Strauss de que os índios Nhambiquaras eram tão primitivos que nem mesmo possuíam Técnica - o que, curiosamente, é desmentido no seu próprio livro "Tristes Tropiques", suscitando a idéia de que por mais primitiva que seja a sociedade sempre há Técnica, por mais simples que seja. Ortega y Gasset chama a esse estágio primitivo da Técnica de "técnica do acaso (azar)", suposto que, nesse estágio, a fabricação dos instrumentos não se diferenciava muito dos seus atos naturais. Assim sendo, os atos técnicos não seriam privativos de certos indivíduos mais aptos, mas igualmente efetuados por todos de uma mesma comunidade.
Contudo, é de acrescentar a Ortega que o pensamento humano é simbólico; ou seja, sempre interpõe entre os objetos percebidos e a mente um símbolo, dos quais os mais imediatos são as palavras da linguagem. Essas têm a propriedade de se conotarem entre si, no sentido de sugerirem ao homem um progresso nos seus conhecimentos. Entre pedra lascada e cortar há, por exemplo, uma conotação que permite a melhoria do instrumento; isto é, poli-lo para cortar melhor. Assim, uma vez obtido, por acaso, um instrumento, instala-se - a princípio muito lentamente - um processo de desenvolvimento técnico.
Foi isso que permitiu a Ortega e Gasset conceber um segundo estágio da Técnica; que ele chama de "técnica do artesanato", em que os atos técnicos são ensinados de geração a geração, incluindo a invenção e o aperfeiçoamento dos instrumentos. É nesse estágio que aparecem certos homens dotados de maior habilidade e que se encarregam das funções técnicas, dedicando a eles a sua vida. São os artesãos, com seus mestres e aprendizes. O aprendizado progride até o ponto de escreverem-se tratados para o ensino das técnicas às gerações futuras.
Com o advento da ciência moderna, no século 17, abriu-se a possibilidade da aplicação de conhecimentos científicos para resolver problemas técnicos. É o caso da máquina a vapor e, mais especificamente, do gerador e do motor elétrico. Surge, então, um terceiro estágio da técnica, ao qual Ortega y Gasset dá o nome de "técnica dos técnicos". Nela é que se dá o trânsito da mera ferramenta do artesão para a máquina que atua por si mesmo. O homem passa a ser um auxiliar da máquina, como operário, mas surge aquele que sabe projetar, construir e conservar as máquinas, o engenheiro, cujos métodos de ação são muito próximos dos métodos dos cientistas: analisa o problema a ser resolvido, dividindo-o em partes; e o resolve a partir da mais simples, experimentando os resultados parciais e concatenando-os em séries de causas e efeitos.
Ortega não viu, entretanto, que, em seu próprio tempo, já vinha surgindo uma radicalmente nova etapa de desenvolvimento técnico, isto é, a Tecnologia. Não se tratava mais de aplicar conhecimentos científicos para construir uma determinada obra ou fabricar um determinado produto, como o fazem a engenharia, a arquitetura, a indústria ou a agropecuária, mas, sim, de resolver problemas técnicos de uma forma generalizada, como faz a Ciência, com suas teorias. Pode-se dizer, por exemplo, que o surgimento de uma tal atividade tecnológica deu-se com as pesquisas de Edison, em seu laboratório de Menlo Park, para obter um metal que servisse para os filamentos de lâmpadas elétricas, que pudesse emitir luz, encandecendo sem, porém, fundir-se. Um outro exemplo é a descoberta das válvulas termoiônicas por John Ambrose Fleming, físico inglês, e Lee e De Forest, PhD pela Universidade de Yale, para seu uso na transmissão e recepção radiofônica. Assim, a pesquisa de propriedades de materiais e o desenvolvimento da eletrônica estão na origem dessa atual etapa da técnica: a Tecnologia, a qual não prescinde da pesquisa tecnológica. Não há Tecnologia se não houver pesquisa tecnológica. E essa é muito semelhante à pesquisa científica.
(*) Professor emérito da Escola Politécnica (Poli), da Universidade de São Paulo (USP) e diretor da Thaemag Engenharia. Este artigo já foi publicado pela revista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)
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