As tecnologias invadem nosso cotidiano
Vani
Kenski1
As
nossas atividades cotidianas mais comuns - como dormir, comer, trabalhar, nos
deslocarmos para diferentes lugares, ler, conversar e se divertir - são
possíveis, graças às tecnologias a que temos acesso. Elas estão tão presentes
em nossas vidas que já nos acostumamos e nem percebemos que não são coisas
naturais. Tecnologias que resultaram, por exemplo, em talheres, pratos,
panelas, fogões, fornos, geladeiras.... alimentos industrializados... e muitos
outros produtos, equipamentos e processos que foram planejados e construídos
para podermos realizar a simples e fundamental tarefa que garante a nossa
sobrevivência: a alimentação.
Da
mesma forma, para todas as demais atividades que realizamos em nossas vidas,
precisamos de produtos e equipamentos resultantes de estudos, planejamentos e
construções específicas para serem utilizados, na busca de melhores formas de
viver. Ao conjunto de conhecimentos e princípios científicos, que se aplicam ao
planejamento, à construção e à utilização de um equipamento em um determinado
tipo de atividade nós chamamos de "tecnologia". Para construir
qualquer equipamento - seja uma caneta esferográfica ou um computador - os
homens precisam pesquisar, planejar e criar tecnologias.
Nas
atividades cotidianas lidamos com vários tipos de tecnologias. As maneiras,
jeitos ou habilidades especiais de lidar com cada tipo de tecnologia, para
executar ou fazer algo, nós chamamos de técnicas. Algumas dessas técnicas são
muito simples e de fácil aprendizado. São transmitidas de geração em geração e
integram os costumes e hábitos sociais de um determinado grupo de pessoas.
Outras tecnologias exigem técnicas mais elaboradas, habilidades e conhecimentos
específicos e complexos.
Existem
muitos outros equipamentos e produtos que utilizamos em nosso cotidiano e que
não os notamos como tecnologias. Alguns invadem o nosso corpo, como
próteses, alimentos e medicamentos. Óculos, dentaduras, comidas e bebidas
industrializadas, vitaminas e outros tipos de remédios são produtos resultantes
de tecnologias sofisticadas.
Como
podemos deduzir, dificilmente a nossa vida cotidiana seria possível, neste
estágio de civilização, sem as tecnologias. Elas invadiram definitivamente o
nosso cotidiano e já não sabemos viver sem fazer uso delas. Por outro lado, nos
acostumamos tanto com os produtos e equipamentos tecnológicos que os achamos
quase naturais. Nem pensamos o quanto foi preciso de estudo, criação e
construção para que estas tecnologias chegassem em nossas mãos.
As
tecnologias não são apenas feitas de produtos e equipamentos.
Existem
outros tipos de tecnologias que vão além dos equipamentos. Em muitos casos,
alguns espaços ou produtos são utilizados como suportes, para que as ações
ocorram. Um exemplo: as chamadas "tecnologias da inteligência" (Lévy,
1993), construções internalizadas nos espaços da memória das pessoas e que
foram criadas pelos homens para avançar no conhecimento e aprender mais. A
linguagem oral, a escrita e a linguagem digital (dos computadores) são exemplos
paradigmáticos desse tipo de tecnologia.
Articuladas
às tecnologias da inteligência nós temos as "tecnologias de comunicação e
informação" que, através de seus suportes (mídias ou meios de
comunicação, como o jornal, o rádio, a televisão) realizam o acesso, a
veiculação das informações e todas as demais formas de articulação
comunicativa, em todo o mundo.
As
tecnologias de comunicação e informação invadem o nosso cotidiano
Estamos
vivendo um novo momento tecnológico. A ampliação das possibilidades de
comunicação e de informação, por meio de equipamentos como o telefone, a
televisão e o computador, altera a nossa forma de viver e de aprender na
atualidade.
Antigamente
as pessoas saíam às ruas ou ficavam nas janelas de suas casas para se
informarem sobre o que estava acontecendo nas proximidades, na região e no
mundo. A conversa com os vizinhos e os viajantes garantia a troca e a renovação
das informações. Na atualidade, a "janela é a tela" diz Virilio.
Através da tela da televisão, é possível saber de tudo o que está acontecendo
em todos os cantos - desde as mais longínquas partes do mundo até as nossas
redondezas. Da nossa sala, através da televisão, podemos saber a previsão do
tempo e o movimento do trânsito, nos informarmos sobre as últimas notícias,
músicas, filmes e livros que fazem sucesso e muito mais.
O
conteúdo oferecido pelos programas televisivos passou a orientar as nossas
vidas. Pessoas de todas as idades, condições econômicas e níveis intelectuais
começaram a viver "ligados na televisão". Algumas pessoas chegaram
"no limite": trocaram de lado. Assumiram em suas vidas valores,
hábitos e comportamentos copiados dos personagens da televisão. Viraram também
"personagens". Não conseguem mais viver distantes da televisão e
assimilam acriticamente tudo o que é ali veiculado.
A
televisão, por sua vez, aproxima-se cada vez mais da realidade cotidiana. O
sucesso dos novos programas ("reality shows") como "Casa dos
Artistas" e "Big Brother Brasil" mostra o quanto a vivência
cotidiana das pessoas alimenta o "show" oferecido pela mídia. A
ficção confunde-se com a realidade produzida no espaço artificial dos cenários
televisivos. Artistas e pessoas comuns vivem um cotidiano totalmente
documentado e exibido e que desperta a curiosidade geral do grande público. A
exibição da "performance" das pessoas em cenas de intimidade
cotidiana explícita (dormir, comer, tomar banho, namorar) diante da tela
confunde os pensamentos, sentimentos, julgamentos e ações dos telespectadores.
A
mídia televisiva como tecnologia de comunicação e informação invade o cotidiano
e passa a fazer parte dele. Não é mais vista como tecnologia, mas como
complemento, como companhia, como continuação do espaço de vida das pessoas.
Por meio do que é transmitido pela televisão, as pessoas adquirem informações e
transformam seus comportamentos. Tornam-se "teledependentes",
consumidores ativos, permanentes e acríticos de tudo o que é oferecido pelo
universo televisivo.
Este
é um dos maiores desafios para a ação da escola diante do que é veiculado pela
televisão na atualidade. Viabilizar-se como espaço crítico em relação às
informações e manifestações veiculadas pela TV. Aos professores é designada a
importante tarefa de refletir com os seus alunos sobre o que é apresentado pela
televisão, suas posições e problemas. Reconhecer a sua interferência no modo de
ser e de agir das pessoas e na própria maneira de se comportar diante do seu
grupo social, como cidadãos.
Apropriando-se
das palavras de Umberto Eco (1997), "nós precisamos de uma forma nova de competência
crítica, uma arte ainda desconhecida de seleção e decodificação da informação,
em resumo uma sabedoria nova" É preciso saber aproveitar a liberdade e a
criatividade do espaço televisivo mas, ao mesmo tempo, aprender a definir os
limites, a consciência crítica, reabilitar os valores e fortalecer a identidade
das pessoas e dos grupos. Desafios de hoje a serem enfrentados por todos nós,
professores.
Referências
bibliográficas:
ECO,
Umberto. From Internet to Gutenberg. 1997. (documento eletrônico: <http://www.italynet.com/columbia/internet.htm>)
LÈVY,
Pierre. Cibercultura. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1999.
VIRILIO,
Paul. O espaço crítico. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.
NOTAS:
1 Professora, com
mestrado (UnB) e doutorado em Educação (UNICAMP). Representante do Grupo de
Trabalho Educação e Comunicação no Comitê Científico da Associação Nacional de
Pesquisa e Pós-Graduaçãao em Educação-ANPED.
Pesquisadora do CNPq. Atualmente é pesquisadora-docente da
USP e da UMESP. Coordenadora do grupo de estudos e pesquisas Memória, Ensino e
Novas Tecnologias-Ment. Orienta pesquisas de mestrado e doutorado e é autora de
artigos e livros sobre esses temas.
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