Um professor com nome[1]
Nelson De Luca Pretto[2]
Conversava
esses dias com minha filha e com algumas colegas, todas universitárias em São
Paulo. O papo girava em torno dos seus futuros e de como estava a universidade.
Meu vício de formação nunca me permite, nesses papos, deixar de fazer uma
costumeira pergunta: quem é o seu professor de tal matéria?! Invariavelmente, a
resposta era: não lembro o seu nome, não! Nas primeiras vezes que escutava esse
depoimento ficava apenas um pouco impressionado, mas na medida em que isso se
repetia, comecei a ficar seriamente preocupado. Será que os alunos de hoje não
sabem nem mesmo os nomes dos seus professores? Isso tem algum significado ou
essa é uma questão absolutamente secundária para esses tempos neoliberais?!
Lendo
A TARDE dias atrás, deparo-me com carinhosa carta de um ex-aluno do Colégio
Antônio Vieira relembrando Pe. Ugo Meregalli, que acabara de nos deixar.
Emocionado, pensava na importância de Pe. Ugo nas vidas de muitos adolescentes
do Vieira, a exemplo da minha. Essa leitura remeteu-me ao início de minha
formação e do meu próprio trabalho de professor, formado na labuta diária de dar
aulas em uma quantidade enorme de escolas de Salvador e Feira. Ao longo de
minha formação, alguns mestres marcaram o meu cotidiano de aluno e, com
certeza, me fizeram ser um professor, digamos, um pouquinho diferente. Um
desses mestres foi Pe. Ugo. Fui seu aluno muito pouco tempo. Tive alguns bons
professores, mas Pe. Ugo destacava-se por algo que sempre me deixou intrigado:
ser um professor absolutamente rigoroso e seguro no seu metiê e, ao mesmo
tempo, um profissional que essencialmente acreditava no ser humano – inclusive
em nosotros, uns pequeninos bagunceiros e aprontadores de primeira! – com uma
preocupação de justiça social que não se prendia a discursos e retóricas, mas
fundada numa prática diária. Uma prática alegre, materializada, entre outras tantas
coisas, nas verdadeiras maluquices que ele inventava, como nas tais histórias
dos tubarões e pobres, que a carta aqui em A TARDE tão bem rememorou.
Ugo
Meregalli, sim, como nome e sobrenome, não passaria pela vida de nenhum
estudante, por menor tempo que fosse, sem uma forte lembrança do seu nome e de
sua presença.
A
escola tinha um outro ritmo, é verdade. Não vivíamos um momento de tanta
associação da educação com o mercado, como se a educação fosse um simples
produto que devesse ser vendido e comprado. A mercantilização da educação, com
a proliferação generalizada de escolas, faculdades e até universidades, traz de
bom o fato de ampliarmos o número de vagas, possibilitando o acesso ao ensino
superior a um número maior de cidades. No entanto, uma nova questão surge e já
nos inquieta: que tipo de educação estamos oferecendo? Que tipo de escola
estamos implantando e, principalmente, que cidadão está sendo formado por
nossas escolas. Está sendo colocado no mercado um número muito grande de
profissionais, mas será que esse pragmatismo da formação aligeirada e tão
voltada para um mercado que nem tão concreto é, não está nos levando a um jeito
de “educar para vencer” a qualquer custo, com profissionais que só aspiram ao
pódium, isto é, “sair direto da faculdade para a diretoria”, “ser o primeiro em
tudo”, “entrar no mercado de trabalho sem pegar fila”, como dizem os inúmeros
outdoors de faculdades espalhados pela cidade?!
Por
outro lado, com esse aumento quase alucinado, também se ampliam os postos para
professores e, estes, diferentes dos nossos antigos mestres, terminam, também
eles, sendo profissionais quase que descartáveis, que podem ser substituídos de
forma quase automática quando algo não funciona a contento. Professores e
professoras que passam pela vida dos estudantes sem uma identidade, sem rosto,
sem um significado maior, como aquele dado por Pe. Ugo quando nos empurrava,
literalmente, para compreender melhor o mundo das funções, da geometria, dos
cálculos. Quando nos levava a entender as dificuldades de resolver essa equação
existencial contemporânea, de tantas variáveis, que não consegue dar conta de
algo mais sublime que é o respeito pelo ser humano e pela igualdade social.
Padre Ugo deixa saudades, mas também uma lição: ser professor é, antes de tudo,
considerar o ser humano e querer uma sociedade menos desigual.
[1] Publicado
no Jornal A Tarde em 30/05/2002.
[2] Nelson De Luca Pretto
é Doutor em Comunicação e diretor da Faculdade de Educação da Universidade
Federal da Bahia. http://www.ufba.br/pretto
Fato super verdadeiro!
ResponderExcluirOs alunos estão ficando mais dispersos dos professores pela falta de comprometimento com o aprendizado passado para os alunos.
O que antes nos sobrava, hj nos falta...
Realmente so se preocupam com o pódium.
Lamentável!